terça-feira, 3 de outubro de 2017

Matiz

Olho fixamente a parede branca à minha frente. Parece que também ela está a olhar para mim. Será que se eu lhe falar, ela responde? Hey. Hey. Hey hey hey hey hey. Heyyyyyy! Na minha cabeça, atiro-lhe baldes e baldes de tinta vermelha, preta e luto conta ela, envolvo-me nela. Mas ela nunca se envolve em mim. Olho fixamente a parede branca à minha frente. Gostava que ela me olhasse também. Mas ela não olha. Não olha, não olha, não olha! Olha para mim. Olha para mim. Olha para mim. Olha para mim, olha para mim! Olha para mim! Nunca olha. As lágrimas já se me começam a formar nos olhos. Há muito tempo que já vivem na alma. Começam a aparecer as pessoas. As pessoas à minha volta. Não conheço. Não as conheço. Não conheço estas pessoas. Não conheço estas pessoas. Não conheço estas pessoas! Agarro a tinta. Agarro-me à tinta. Protejo-me na tinta, com a tinta, da tinta. Protejo-me da tinta. A minha tinta. A minha tinta preta vermelha sem cor. Tinto. Tudo tinto, agora está tudo tinto. A parede. As pessoas. Agora está tudo tinto. Agora somos parte da mesma matiz.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Feridas

Uma ferida é uma interrupção na continuidade de um tecido corpóreo. Tal interrupção pode ser provocada por algum trauma, ou ainda ser desencadeada por uma afecção que acione as defesas do organismo.

Ser real com as minhas feridas. Dar-lhes a dignidade que merecem. Era esse o meu sonho. Descobri-las, invadi-las, desconstruí-las. Vivê-las sem espetadores. Aliás... Com espetadores e com a liberdade que merecem. Com a liberdade que mereço. Com o que eu quiser, com o que elas precisarem. Ser real com as minhas feridas. Só quero poder ser real com as minhas feridas. Descobri-las, invadi-las, desconstruí-las. Conhecê-las. Fazer amor com elas. Fazer amor com as minhas feridas. Levá-las ao olho do furacão para poder trazê-las de volta ao pôr-do-sol, à beleza da Lua e do céu estrelado. Aceitar as minhas feridas. Ouvi-las, percebê-las, senti-las. Dar-lhes a casa que merecem, já que foi escolha delas viverem em mim. Deixem-me ser real com as minhas feridas. É esse o meu sonho. Uma conversa franca com as minhas feridas. As minhas feridas: as minhas feridas. Genuínas, ativas, decididas. Queria eu ser tão real com elas como são elas comigo.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Tempestade

Disse-me "tchau" tratando-me pelo nome e nunca mais voltou. Foi um beijo, um único beijo, despediu-se como se nos fôssemos ver no dia seguinte e nunca mais voltou. Talvez deliberadamente, talvez porque se distraiu, talvez porque morreu... Não sei... Simplesmente, porque ela nunca mais voltou. E, não sabendo para onde foi, lá a segui à minha maneira. Não sabendo se morreu, morri um pouco com ela.

Sempre foi um ser peculiar. Com a passagem dos anos, do tempo, só aprendeu a abraçar essa sua parte inevitável. Talvez por ser inevitável, fosse tão mortífera. E talvez por ser tão tóxica, a tenha ela abraçado. Porque não podia ser de outra forma. E era um tóxico tão doce, tão ingenuamente marcado pela doçura, que... Talvez fosse por isso que se tornava impossível não morrer. 

De todas as vezes que a encontrei, senti aquilo que sentem as pessoas perdidamente apaixonadas. Perdido... E tão preenchido... Simultaneamente. Era como se, perfeitamente consciente, escolhesse nadar para fora de pé. Ir para alto mar, ciente da tempestade alheia à minha força, alheia à minha vontade, mais uma vez impossível - sempre impossível - de controlar. Ela era uma tempestade. E se vive, ainda o é. 

sábado, 23 de setembro de 2017

Não

Perguntei-lhe se sabia o que estava a fazer. Ela disse que não. Nunca soube. Acabava sempre perdida num espaço qualquer, espaço sem espaço com espaço qualquer algures físico, emotivo, aéreo... Espacial. Espaço espacial. Ela disse que não, que não sabia. Não sabia o que queria ou o que devia querer. O que devia fazer. Ou o que esperar sequer. Cada dia algo novo, alguém novo, chegadas e partidas inesperadas mas necessárias, distâncias proximidades barreiras erguidas barreiras quebradas barreiras atrás de barreiras liberdades vividas liberdades sentidas liberdades alcançadas e eu perguntei-lhe se ela sabia o que estava a fazer. E ela disse que não. Que não sabia, nunca soube. E no fundo sempre soube, sem saber, sabendo no fundo. E então, voltou à carga. À carga da emoção sensação toque fuga, toca e foge, foge e toca, toca sempre... Toca sempre de mais, nunca de menos. Arriscando sem arriscar a fundo. Nesse fundo sem fundo sem fim nem mundo concreto - abstrato, sempre abstrato, tão concreto na sua abstração - tão concreto na mente dela... Se ao menos não fosse a mente dela aérea, abstrata também...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Paz

Toda a gente fica onde encontra paz. Mesmo que mais tarde vá parar ao olho do furacão. Toda a gente fica onde sente paz. Ainda que temporária, ainda que a confusão esteja apenas adormecida. Toda a gente se deixa levar pela paz. Toda a gente se deixa levar pela paz de amar alguém. Mesmo quando à volta, fora da bolha - a bolha boa, a bolha calma, a bolha bela, a bolha selvagem, a bolha genuína, a bolha a bolha aquela bolha, a bolha boa, a bolha calma, a bolha bela, a bolha selvagem, a bo... - tudo parece loucura. Tudo parece loucura. Mas toda a gente fica onde encontra paz. Toda a gente fica onde sente paz. Toda a gente se deixa levar pela paz. Toda a gente quer paz. Paz maluca, paz controladamente louca... Mas paz. Mesmo que mais tarde vá parar ao olho do furacão.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Sintonia

When life offers you a dream so far beyond any of your expectations, it's not reasonable to grieve when it comes to an end.

Ali, não havia mais nada. Só o flutuar do meu corpo no embalar do mar. A água abafava o som do exterior e o nublado do céu, cinzento, quase branco - claro, para mim quase límpido - trazia a paz de nem sempre o Sol e o céu azul serem a única fonte de conforto. Chuviscava mas o ar estava confortável o suficiente para depois daquele mergulho já nem sentir a diferença. De certa forma, estava numb. Mas nem sempre o numb é negativo. Pelo contrário, neste caso... Era positivo. Incrivelmente positivo. Tendo em conta o tempo não muito convidativo, acabei por ter a zona balnear só para mim. Ao longe, de vigia, estavam apenas os nadadores-salvadores a fazer o trabalho que lhes competia. Faça chuva ou faça Sol, lá estão eles. Faça chuva ou faça Sol, cá estou eu. 
Nem sempre as coisas correm como esperamos. 
Por vezes, correm melhor.

domingo, 9 de julho de 2017

Se há algo

Se há algo que eu posso afirmar sobre o tempo... É que ele corre. E só percebemos quando olhamos para trás. Quando já lá não estão algumas pessoas, quando percebes que estavas mais gord@ ou mais magr@, mais em cima ou mais em baixo, mais rebelde, mais sábi@... Quando revês momentos, sentimentos, histórias e por um segundo, pelo menos um segundo, é como se estivesses novamente ali. Se há algo que eu posso dizer sobre o tempo... É que ele corre. Mas deixa o seu rasto vivo, o seu rasto real. Quando aquela pessoa que viste nascer cresce a olhos vistos, quando o "amor da tua vida" já não é o mesmo, quando já és tu a assinar a papelada importante. Quando a pessoa a tomar as decisões és tu. E isso pode não mudar nada ou... Pode mudar tudo. Se há algo que eu posso afirmar sobre o tempo... É que ele é fundamental no nosso rumo.

Como é que vamos receber? Como é que o vamos tratar? 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Processos

As palavras fervilham: correm, percorrem, tão reais como o sangue nas minhas veias: percorrem, correm, tão ágeis como os impulsos elétricos no meu cérebro. Vivo cada momento, cada frase; ouço cada voz, visualizo cada cenário como se já de mim fizesse parte: e faz. Revivo cada emoção, sensação, toque, cheiro, textura; tenho em mim cada olhar, cada expressão, cada decisão que poderia mudar tudo: e mudou. Pondero delicadamente a abordagem mas esta já não é minha: é delas: cara a cara, voz a voz, carne a carne, mente a mente, corpo a corpo, vida a vida: vida a vida. As palavras fervilham: correm, percorrem, tão reais como o sangue nas minhas veias: percorrem, correm, tão ágeis como os impulsos elétricos no meu cérebro. E nesse momento… Já não sou eu. E não sendo eu, sou tudo.

domingo, 30 de abril de 2017

Como?

É tão fácil perdermo-nos na rotina... No stress... Nas tarefas, no que os outros querem que nós façamos, no tic-tac dos relógios, nas notificações constantes; nos números que aparecem nas pautas, nas palavras, nas regras que temos de saber, que temos de escrever, que temos de ler, que temos de aplicar... 
É tão fácil perdermo-nos no que outras pessoas decidem por nós, definem por nós, esperam de nós. É tão fácil perdermo-nos no que outros que muitas vezes sabem pouco mais do que o nosso primeiro (e com sorte último) nome, que muitas vezes sabem pouco mais do que o número que vêem numa lista seja ela telefónica, académica... É tão fácil deixarmos que essas pessoas influenciem aquilo que sentimos, aquilo que fazemos, aquilo que supostamente queremos, quando... No fundo, não é nada disso... Não é nada assim. 
Os dias voam, os anos passam... E depois? Depois fica o quê? Acabamos o curso do qual 50% da teoria é esquecida, (com sorte!) arranjamos emprego na área que tanto queríamos, (com um pouco "menos" de sorte, arranjamos um trabalho)... As pessoas que antes tanto afetavam o nosso presente tornam-se parte do passado, continuam a fazer a vida delas e vêm outras: o patrão que um dia pode decidir reduzir staff, alguém que conhecemos numa suposta qualquer atividade de escape à violência do dia-a-dia que decide gritar connosco... Etc, etc. E assim, num ciclo vicioso, enganamo-nos a nós próprios, resignamo-nos e aceitamos. Aceitamos o inaceitável.
Aceitamos o inaceitável.
Vamos todos morrer. Será que já pensámos nisso... Realmente? Será que pensamos nisso? 
Aceitamos o inaceitável! 
Deixamos de dizer "não", deixamos de dizer "basta".
Mas.. E depois? 
Como é que reencontramos quem nós somos?...


quinta-feira, 9 de março de 2017

Bagage

Há toda uma bagagem que num momento ou outro da nossa vida vem e nos arrebata, envolve num qualquer estado sem palavra, sem meio, sem ato que se defina. Essa bagagem, a nossa bagagem, vem ao de cima, impõe-se em cadeia: de mansinho e depois violentamente: como se precisássemos dela para acordar: para sobreviver. 
E precisamos. 
Por vezes não sei o porquê, por vezes penso que sei. Por fim, prefiro não procurar saber. Aceito isso que se acumula e acumulará ao longo da vida e assim se tornará mais leve. Como uma qualquer esperança imortal de alcançar sabedoria. A sabedoria em estado de espírito. Um estado de espírito em sabedoria. 
Um estado de espírito. 
O meu estado de espírito. 
O meu eu, sintonia dissimulada. 
Há toda uma bagagem que num momento ou outro da nossa vida vem e nos arrebata, envolve num qualquer estado sem palavra, sem meio, sem ato que se defina. Vem assim, numa noite quente, numa noite fria, num fim de tarde ao pé do rio, numa manhã confortável; entre uma multidão de pessoas, num compasso de espera;  acompanhada por um orvalho, acompanhada por um pôr-do-sol. 
Acompanhada por nós. Acompanhada por mim; acompanhada por ti. 
Nunca sozinha. 
Singelamente acompanhada. Violentamente acompanhada. Extasiada. 
Em linhas difusas e ainda assim tão claras... Marcadamente delineadas por memórias, sensações, emoções...
Viva.
Bagagem viva. 
Bagagem.
Bagage
Por vezes, qualifica-nos. 
Noutras, apodera-se de nós.
Mas está pronta. Sempre pronta. A ir connosco em batalha. A cada batalha.

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Música. Família. Amor. Amizade. Escrita. A procura por mim mesma. Vida. E é a isto que se resume. Sintam-se à vontade por aqui & enjoy. :)

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